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A cidade que você conhece está a mudar — mais rápido do que imagina
Alguma vez parou para pensar que Portugal perde o equivalente a nove piscinas olímpicas de água por hora nas suas redes de distribuição? Ou que Lisboa já opera um gémeo digital para gerir a sua Zona de Emissões Reduzidas em tempo real?
Entre os dias 12 e 14 de maio de 2026, o Pavilhão 3 da Feira Internacional de Lisboa, no Parque das Nações, foi o epicentro de um debate que importa a todos — autarcas, investidores, empresas tecnológicas e cidadãos. O Portugal Smart Cities Summit reuniu o principal ecossistema nacional e tendências internacionais numa das maiores plataformas europeias dedicadas às cidades inteligentes.
Neste artigo, ficam os temas que dominaram os três dias, os casos concretos que chamaram a atenção e o que este evento significa para o Portugal urbano dos próximos anos.
O que é (realmente) uma cidade inteligente?
Antes de entrar nos destaques, vale fixar o conceito. Uma smart city não é apenas uma cidade com sensores e apps. É um ecossistema urbano onde tecnologia, dados e governança convergem para melhorar a qualidade de vida das pessoas — de forma sustentável e inclusiva.
No Summit de 2026, os temas que estruturaram toda a programação foram:
Eixo Temático
Exemplos Debatidos
Qualidade de vida e bem-estar
Saúde digital, inovação social, habitação
Governança e e-Gov
Licenciamento digital, dados abertos, cibersegurança
Mobilidade inteligente
MaaS, mobilidade elétrica, logística urbana
Sustentabilidade
Água, energia renovável, economia circular
Tecnologia urbana
IoT, Inteligência Artificial, digital twins, smart buildings
Os três debates que marcaram o evento
1. Água: a crise silenciosa que os dados tornaram visível
O painel sobre eficiência de recursos foi um dos mais impactantes do evento. A câmara municipal de Oeiras, representada por Sílvia Breu, foi direta: as redes de água portuguesas perdem volumes absurdos por hora, e o caminho passa por sensores, monitorização contínua e — sobretudo — por mudanças regulatórias que permitam aos municípios investir sem burocracia travante.
"A eficiência já não é apenas um desafio, é uma inevitabilidade" — foi a frase que ficou do summit.
2. Resíduos como recurso: a economia circular em ação
A Lipor (Diana Nicolau) e a Tratolixo (Nuno Soares) partilharam uma visão consistente: os resíduos não são um problema, são uma matéria-prima. A Lipor já produz composto e energia a partir de resíduos. A Tratolixo aponta para mais de 500 mil toneladas geridas em 2025, com foco crescente no tratamento de biorresíduos — que representam 55% dos resíduos totais.
3. NextCity: o gémeo digital de Lisboa
Um dos momentos mais aguardados foi a apresentação do projeto NextCity — o gémeo digital colocado ao serviço da Zona de Emissões Reduzidas de Lisboa. A iniciativa permite simular cenários de tráfego, emissões e intervenção urbana antes de qualquer decisão ser tomada no terreno. Menos experimentação cega, mais decisão baseada em dados.
Lisboa, Porto, Cascais: as cidades portuguesas no palco europeu
O Summit não foi apenas uma vitrine de tecnologia — foi também uma oportunidade para as cidades portuguesas mostrarem o que já fazem. Lisboa, Porto, Cascais, Évora e Guimarães foram destacadas como casos de estudo em mobilidade, eficiência energética e governança digital.
A sessão "Smart Port Lx: Porto Inteligente, Cidade Sustentável" explorou a tensão produtiva entre porto e cidade — como as infraestruturas portuárias e os bairros envolventes podem coevoluir com inteligência urbana, em vez de competir por espaço e recursos.
BIM no licenciamento municipal: o fim das obras que nunca acabam?
Uma das novidades mais práticas do evento foi o foco em Building Information Modelling (BIM) aplicado ao licenciamento municipal. Técnicos e autarcas discutiram como a transição para licenciamento assistido por modelos digitais pode acelerar radicalmente os processos de aprovação — e reduzir os erros que custam tempo e dinheiro a promotores e municípios.
O que o Portugal Smart Cities Summit 2026 nos diz sobre o futuro
Três conclusões saem reforçadas deste evento:
Os dados são infraestrutura pública. Cidades que não investem em dados abertos, gémeos digitais e interoperabilidade entre sistemas estão a acumular um atraso que será difícil de recuperar.
Sustentabilidade e tecnologia são inseparáveis. Água, energia e resíduos só serão geridos de forma eficiente com sensores, IA e economias circulares bem desenhadas.
Portugal está na conversa certa. O facto de Lisboa acolher um dos principais summit europeus de smart cities não é cosmético — é o reflexo de um ecossistema de inovação urbana que cresce a sério.
Concluindo, o Portugal Smart Cities Summit não é apenas uma feira de tecnologia. É um espelho do que as nossas cidades podem e devem ser. E este ano, o que esse espelho mostrou foi simultaneamente honesto sobre os desafios (água, regulação, escala) e ambicioso sobre as soluções.